Quem foi Jó na Bíblia? História e lições

Resposta curta

Jó foi um homem justo que perdeu os bens, os filhos e a saúde, mas não amaldiçoou a Deus. Os amigos insistiam que ele sofria por causa dos seus pecados, mas no fim Deus falou com Jó do meio de um redemoinho, mostrou-lhe a sua sabedoria e o seu poder, e Jó se humilhou e confiou nele. O livro ensina que Deus é sábio e bom mesmo quando não sabemos por que sofremos.

O livro de Jó apresenta em forma de história uma das perguntas mais antigas que o ser humano faz a Deus: por que o justo sofre? O começo e o fim estão em prosa, e a longa parte do meio, do capítulo 3 ao início do capítulo 42, é poesia: uma série de discursos em que Jó e seus amigos lutam com a dor dele. John MacArthur observa que Jó media a sua riqueza em rebanhos, como os patriarcas, e Matthew Henry o situava perto da época de Abraão.

Um homem justo e uma prova que ele não via (Jó 1–2)

O livro começa apresentando o seu personagem: um homem da terra de Uz, íntegro e reto, que temia a Deus e se desviava do mal.

Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e este homem era íntegro e correto, temente a Deus, e que se afastava do mal.

Jó 1:1 · Bíblia Livre

Warren Wiersbe explica que Jó não era sem pecado, mas sincero e obediente ao Senhor, e que temia a Deus não com terror, mas com uma confiança humilde. MacArthur acrescenta que ele era um marido e pai dedicado, que até oferecia sacrifícios pelos filhos para o caso de terem pecado (Jó 1:5).

Depois a cena passa para o céu. Satanás, cujo nome significa “adversário”, afirma que Jó serve a Deus só porque Deus o abençoou e o protegeu. Deus permite que ele tire tudo o que Jó tem, mas não que toque nele (Jó 1:6–12). MacArthur ressalta que nem Jó nem seus amigos chegaram a saber dessa conversa. Henry vê na cena o quanto Satanás odeia os piedosos e com que firmeza Deus o segura.

Num só dia Jó perde bois, jumentas, ovelhas, camelos e servos, e uma ventania mata os seus dez filhos (Jó 1:13–19). Sua resposta é uma das passagens mais conhecidas da Bíblia: ele rasga o manto, rapa a cabeça, prostra-se em adoração e diz que saiu nu do ventre da mãe e nu voltará; o Senhor deu, o Senhor tomou, bendito seja o nome do Senhor. Em tudo isso Jó não pecou nem culpou a Deus.

Então Jó se levantou, rasgou sua capa, rapou sua cabeça, e caindo na terra, adorou, E disse: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para lá voltarei. O SENHOR deu, e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR. Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.

Jó 1:20–22 · Bíblia Livre

Albert Barnes explica que rasgar o manto, a veste de cima, era um sinal conhecido de luto no Oriente. MacArthur observa que Jó recebeu com calma as primeiras notícias, mas a morte dos filhos trouxe todos os sinais de dor. Ainda assim, em vez de amaldiçoar, ele adorou.

Vem uma segunda prova: Jó é ferido com tumores dolorosos da cabeça aos pés, e a mulher lhe diz que amaldiçoe a Deus e morra. Ele responde que devemos receber de Deus tanto o bem quanto o mal (Jó 2:7–10). MacArthur lembra que ninguém entende os discursos de Jó sem ter em mente a dor física constante que ele sentia.

Jó e seus amigos (Jó 3–37)

Três amigos, Elifaz, Bildade e Zofar, vêm consolar Jó e ficam sete dias sentados com ele em silêncio (Jó 2:11–13). Depois Jó quebra o silêncio amaldiçoando o dia em que nasceu (Jó 3:1–3).

Seguem três rodadas de discursos. Os amigos defendem uma única ideia: Deus sempre recompensa os justos e castiga os ímpios já nesta vida, então Jó deve ter pecado. Jó insiste na sua inocência, se queixa com amargura e exige que Deus lhe responda. Num dos seus momentos mais sombrios, ele declara que sabe que o seu Redentor vive e que, mesmo depois de a sua pele ser destruída, verá a Deus.

Pois eu sei que meu Redentor vive, e ao fim se levantará sobre a terra; E mesmo depois de consumida minha pele, então em minha carne verei a Deus;

Jó 19:25–26 · Bíblia Livre

MacArthur escreve que no ponto mais fundo do desespero a fé de Jó chegou ao auge, quando ele afirmou com segurança que Deus era o seu Redentor.

Depois fala longamente um homem mais jovem, Eliú (Jó 32–37). MacArthur o descreve irado e duro com Jó, embora traga algumas ideias novas.

Deus responde do redemoinho (Jó 38–42)

Por fim o Senhor fala do meio de um redemoinho. Ele pergunta quem é esse que escurece o conselho com palavras sem conhecimento, manda Jó se preparar para responder e pergunta onde ele estava quando Deus lançou os fundamentos da terra.

Então o SENHOR respondeu a Jó desde um redemoinho, e disse: Quem é esse que obscurece o conselho com palavras sem conhecimento? Agora cinge teus lombos como homem; e eu te perguntarei, e tu me explicarás. Onde estavas tu quando eu fundava a terra? Declara- me,se tens inteligência.

Jó 38:1–4 · Bíblia Livre

MacArthur observa que Deus nunca diz a Jó por que ele sofreu nem menciona o desafio de Satanás. Em vez disso, faz pergunta após pergunta sobre a criação da terra, o mar, a luz, o clima e os animais (Jó 38, Jó 39). Se Jó não é tão sábio e poderoso quanto Deus, resume MacArthur, é melhor confiar nele. Jó então reconhece que Deus tudo pode, que falou de coisas que não entendia, que antes conhecia Deus só de ouvir falar, mas agora os seus olhos o viam, e por isso se arrepende no pó e na cinza.

Eu sei que tudo podes, e nenhum de teus pensamentos pode ser impedido. Tu dizes: Quem é esse que obscurece o conselho sem conhecimento? Por isso eu falei do que não entendia; coisas que eram maravilhosas demais para mim, e eu não as conhecia. Escuta-me, por favor, e eu falarei; eu te perguntarei, e tu me ensina. Com os ouvidos eu ouvira falar de ti; mas agora meus olhos te veem. Por isso me abomino, e me arrependo no pó e na cinza.

Jó 42:2–6 · Bíblia Livre

Barnes explica que essas palavras reconhecem que Deus é todo-poderoso e que nenhum dos seus propósitos pode ser impedido. Wiersbe observa que a experiência de Jó com Deus já não era de segunda mão: ele encontrou o Senhor pessoalmente, e isso fez valer a pena todo o seu sofrimento. MacArthur lembra que naquele momento nada tinha mudado nas circunstâncias de Jó; o que mudou foi o seu coração.

O final surpreende. Deus repreende os três amigos porque não falaram dele com retidão, como Jó falou, e Jó ora por eles (Jó 42:7–9). Wiersbe nota que Deus não acusa Jó dos pecados que os amigos lhe atribuíam. Depois Deus restaura Jó e lhe dá o dobro do que tinha antes (Jó 42:10–17).

O que o livro de Jó ensina

O Novo Testamento apresenta Jó como exemplo: chamamos felizes os que perseveraram, ouvimos falar da perseverança de Jó e vimos o fim que o Senhor lhe deu, porque o Senhor é cheio de compaixão e misericórdia.

Eis que considerarmos benditos os que suportam o sofrimento. Ouvistes da paciência de Jó, e vistes o resultado da parte do Senhor; porque o Senhor é muito misericordioso, e cheio de compaixão.

Tg 5:11 · Bíblia Livre

William MacDonald comenta que poucas pessoas na história perderam tanto em tão pouco tempo, mas Jó nunca se afastou de Deus, e no fim Deus se mostrou misericordioso. MacArthur acrescenta que, assim como com Jó, Deus tem um propósito quando os seus filhos sofrem.

O livro de Jó adverte contra a conclusão fácil de que toda desgraça é castigo por um pecado específico: esse foi o erro dos amigos. Mostra que Deus governa sobre tudo, até sobre Satanás, e que o crente pode levar a ele uma dor sincera e perguntas difíceis. Acima de tudo, ensina a confiar quando não há explicação. Jó não recebeu respostas; encontrou-se com Deus, e isso lhe bastou. Leia mais em Por que Deus permite o sofrimento?