Parábola do bom samaritano: explicação

Resposta curta

Jesus contou a história de um samaritano que parou para cuidar de um viajante ferido depois que um sacerdote e um levita passaram direto. A parábola responde à pergunta do intérprete sobre quem é o seu próximo virando-a do avesso: o amor não pergunta a quem é obrigado a ajudar, mas mostra misericórdia a qualquer pessoa em necessidade.

A parábola do bom samaritano aparece só em Lucas (Lucas 10:25–37). Jesus não a contou como uma história solta: ela foi a resposta a um especialista na lei de Moisés que queria testá-lo. Para entender a parábola, é preciso começar por essa conversa.

Uma pergunta sobre a vida eterna

Um intérprete da lei se levanta e pergunta a Jesus o que deve fazer para herdar a vida eterna. Jesus devolve a pergunta: o que está escrito na lei? O homem responde com dois mandamentos: amar a Deus de todo o coração, alma, força e entendimento, e amar o próximo como a si mesmo.

E eis que um certo estudioso da Lei se levantou, tentando-o, e dizendo: Mestre, o que devo fazer para ter para herdar a vida eterna? E ele lhe disse: O que está escrito na Lei? Como tu a lês? E respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo teu coração, e de toda tua alma, e de todas tuas forças, e de todo teu entendimento; e amarás a teu próximo como a ti mesmo.

Lc 10:25–27 · Bíblia Livre

Warren Wiersbe tem a impressão de que o homem não buscava a verdade, mas queria arrastar Jesus para um debate que esperava vencer. A resposta dele juntou Deuteronômio 6:5 e Levítico 19:18, e Jesus disse que, fazendo isso, ele viveria (Lucas 10:28).

John MacArthur explica que a promessa da lei é verdadeira, mas nenhum pecador consegue cumpri-la perfeitamente, e por isso suas exigências servem para nos levar a buscar a misericórdia de Deus. Albert Barnes diz o mesmo: Jesus mostrava ao homem que ele precisava de uma justiça melhor do que a sua. Mas o intérprete, querendo se justificar, perguntou quem era o seu próximo.

Mas ele, querendo se justificar, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

Lc 10:29 · Bíblia Livre

Barnes e MacArthur lembram que muitos mestres da época restringiam o “próximo” aos judeus, ou apenas aos justos entre eles. No entanto, o mesmo capítulo de Levítico mandava amar também o estrangeiro que morava em Israel como a si mesmo (Levítico 19:34).

A história que Jesus contou

Um homem desce de Jerusalém para Jericó, cai nas mãos de assaltantes, que o despem, o espancam e o deixam quase morto.

E respondendo Jesus, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e foi atacado por assaltantes, que também tiraram suas roupas, espancaram-no, e se foram, deixando-o meio morto.

Lc 10:30 · Bíblia Livre

MacArthur descreve a estrada: uma descida pedregosa e sinuosa de cerca de 27 quilômetros, com uns mil metros de desnível, famosa pelos assaltantes. Os ouvintes de Jesus a conheciam bem.

Por acaso passa por ali um sacerdote, que vê o homem e passa pelo outro lado. Um levita faz o mesmo.

E por acaso descia um certo sacerdote pelo mesmo caminho, e vendo-o, passou longe dele. E semelhantemente também um levita, chegando junto a aquele lugar, veio, e vendo-o, passou longe dele

Lc 10:31–32 · Bíblia Livre

Os sacerdotes serviam no templo, e os levitas os ajudavam. Barnes observa que a estrada era muito usada por quem ia a Jerusalém. Os comentaristas imaginam motivos, como o medo dos assaltantes, mas Jesus não dá nenhuma desculpa. Justamente os que ensinavam a lei de Deus deixaram para trás um homem à beira da morte.

Então um samaritano em viagem chega até ele, sente compaixão, trata as feridas com óleo e vinho, coloca-o no seu animal, leva-o a uma hospedaria e, no dia seguinte, paga ao hospedeiro dois denários, prometendo cobrir o que mais for gasto.

Porém um certo samaritano, que ia pelo caminho, veio junto a ele, e vendo-o, teve compaixão dele. E chegando-se, amarrou-lhe um curativo nas feridas, pondo-lhe nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre o animal que o transportava, levou-o para uma hospedaria, e cuidou dele. E partindo-se no outro dia, tirou dois dinheiros, e os deu para o hospedeiro; e disse-lhe: Cuide dele; e tudo o que gastares a mais, eu te pagarei quando voltar.

Lc 10:33–35 · Bíblia Livre

Judeus e samaritanos eram inimigos antigos, e ninguém esperava que o herói fosse um samaritano. MacArthur explica os detalhes: muitos viajantes levavam um pouco de óleo e vinho como primeiros socorros, e o vinho servia para limpar as feridas. Dois denários eram o salário de dois dias, provavelmente o suficiente para o ferido ficar na hospedaria até se recuperar.

Quem foi o próximo?

Jesus pergunta qual dos três se mostrou próximo do homem assaltado. O intérprete responde que foi aquele que usou de misericórdia, e Jesus o manda ir e fazer o mesmo.

Quem, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que foi atacado por assaltantes? Ele disse: Aquele que agiu tendo misericórdia com ele.Então Jesus lhe disse: Vai, e faze da mesma maneira.

Lc 10:36–37 · Bíblia Livre

O intérprete tinha perguntado quem merecia o seu amor. Jesus pergunta quem agiu como próximo. Wiersbe resume: a pergunta que devemos responder não é quem é o nosso próximo, mas de quem nós podemos ser o próximo. MacArthur acrescenta que cada um tem o dever de ser o próximo, sobretudo de quem está em necessidade. E Matthew Henry sugere que o intérprete nem quis pronunciar a palavra “samaritano”.

O que a parábola ensina

Primeiro, o amor não impõe limites. Henry explica que devemos considerar nosso próximo todo aquele que precisa da nossa misericórdia. O que pede compaixão é a necessidade da pessoa, não o seu povo nem o seu passado.

Segundo, a parábola revela o coração. O intérprete conhecia as palavras certas, assim como o sacerdote e o levita. Mas a misericórdia não se mostra em conhecer o mandamento, e sim em parar e ajudar.

Terceiro, muitos comentaristas veem no samaritano uma figura de Cristo. Henry nos compara ao ferido, incapaz de se salvar, e Jesus ao estrangeiro desprezado que veio, tratou as feridas e pagou tudo. Wiersbe, por outro lado, adverte que não devemos transformar a parábola numa alegoria da salvação, porque o seu ensino claro é prático: ajude quem você puder ajudar. As duas leituras se encontram. Amamos porque Deus nos amou primeiro (1 João 4:19), e a misericórdia recebida em Jesus nos envia a fazer o bem a todos (Gálatas 6:10).